Food and Drinks from Madeira, Top posts, Travel to Madeira
comments 27

Uma rota das ponchas na Madeira

rota das ponchas

“Vou à venda e já volto” – disse eu, sábado passado.
Esta expressão resiste estoicamente, na Madeira.

Aceitei o desafio proposto por um grupo de amigos, para escrever este artigo no blog – Uma rota das ponchas na Madeira.

(Por motivos de discernimento e prudência…a Rota foi dividida em 2 partes, digamos que esta é a rota 1, logo virá a rota 2.)

As vendas da Madeira são o símbolo de outros tempos, o tempo dos nossos avós em que a vida tinha outra calma; outros tempos.
Nessa altura, os produtos vendiam-se avulso, sem pré-embalagens, nem paletes. As vendas vendiam de tudo. Desde cremes, semilhas, vassouras e pás, passando pelos “gamses” (pastilhas elásticas) e até barbantes. Ao lado da venda havia sempre o indispensável bar, que vendia o vinho com laranjada e a poncha de aguardente.

Foi com alegria e prazer que revivi esse antigamente, onde as contas ficavam registadas no “rol” e eram pagas no fim do mês. Vimos mesmo um desses livros, que felizmente sobrevive desde 1915 para contar história.

Espero que as vendas sobreviventes, continuem a resistir à velocidade dos nossos tempos e que permaneçam como vivo exemplo do comércio tradicional madeirense.

Esta rota ( Rota 1) contempla 4 vendas e um snack-bar. Começa no Caniço, vai até Câmara de Lobos e acaba no Funchal. Os preços variam desde 1,5€ a 2,5 €.

Cá vai disto:

Venda do Noé
Quem aqui entra, recua ao tempo do Noé, o Sr. que em 1915 anotava em contos de réis as contas da sua venda. De porta aberta a todos os que querem entrar, é agora o Sr. Celestino quem nos recebe, com uma calma e um sorriso de quem estima o que faz.
Esta venda tem a mestria de fazer poncha de tangerina, feita na hora com fruta fresca – um convite à amena cavaqueira entre amigos, num sábado à tarde.
A venda do Noé fica na Mãe de Deus – Caniço, mesmo ao lado da capela mais antiga da Madeira, Capela da Mãe de Deus (a única, segundo o Sr. Celestino) que celebra a missa do parto a 24 de Dezembro – fica a promessa de lá voltar, antes do Natal de preferência!

Morada: Caminho da Mãe de Deus nº 43, Caniço.


 


FidyPoncha
Chegando ao Estreito de Câmara de Lobos encontra a venda do Sr. Fidélio Figueira, que serve ponchas, sempre, feitas na hora.
Tem também uma acolhedora sala de refeições, que convida a saborear os famosos pregos e picados. Este espaço expõe também fotografias antigas desta mercearia, que conta já com mais de um século de vida. As especialidades são a poncha de tomate Inglês e a poncha regional, recomendo ambas, espectáculo!

Morada: Caminho do estreitinho nº1, Estreito de Camara de Lobos

 



 

Venda do André
Situada na Quinta Grande, esta venda tem cerca de 70 anos de idade e está decorada com o seu mobiliário antigo. Nos armários desta venda encontra verdadeiras relíquias, desde antigas máquinas de café, a serviços de louça, a notas de escudos e a fotografias de celebridades. Foi também o primeiro local da Madeira a servir ginja em copo de chocolate, mas nós vínhamos era pra’ poncha de laranja, que é bem boa.

Morada: Estrada João Gonçalves Zarco, Quinta Grande





 A Vaquinha do calhau
Uma amiga falou-me desta poncha de pitanga: “ A única poncha que eu nunca digo não.” E nós lá fomos atestar. O Alberto é um supra-sumo no que diz respeito a ponchas. Há 15 anos que prepara ponchas e sabe muito bem o que a torna especial. A sua poncha de pitanga é irresistível. Provamos também a poncha de frutos vermelhos: mirtilos, framboesa, amora e morango, uma delícia. E quanto aos “dentinhos” (petiscos), deu-nos a provar o gaiado, as ventrechas de atum e os pickles de vegetais. Este bar tem a vantagem de estar lado a lado, com a baía de Camara de Lobos e beber uma poncha à beira-mar é “ouro sobre azul”.

Morada: Largo Poço 5/6, Câmara Lobos





Mercearia do Avô
Já de regresso ao Funchal, visitamos mais esta mercearia à moda antiga, em S. Roque. Simpatia não lhe falta, já que Luís Ramalho, recebe-nos como quem recebe um amigo em casa. É que esta mercearia tem muito que se lhe diga…
Este espaço quase museológico, tem peças antigas de decoração, tais como as cadeiras de madeira dos arraiais madeirenses, uma balança antiga de carne e peixe, uma máquina de fazer cachorros quentes (que me fez viajar até à infância) e bom gosto, fruto da devoção de um apreciador de antiguidades. Tem também uma adega com vista para a baia do Funchal e para uma horta biológica que cultiva (entre outras coisas) espinafres e pêra-meloa, já viram alguma? A partir de Junho, serve refeições por encomenda para grupos; cozido à Portuguesa, entre outros. Quanto à Poncha de limão, esta não desiludiu e faz jus ao local onde se encontra – 5 estrelas.

Morada: Caminho Velho da Quinta 52, Funchal





Resta-me concluir com duas notas:
Nº 1 “Beba com moderação. Se conduzir não beba e se beber não conduza!”
Nº 2 “Quem tem amigos, tem um tesouro.” 😉

Aqui fica o mapa com todos os bares aqui referidos.

Agradeço à Vanessa por este desafio e ao Nuno pela fantástica compilação musical que nos acompanhou na viagem, se quiserem ouvir, cá está.

Se conhecerem outras vendas/mercearias antigas ou bares onde beber poncha feita na hora, partilhem por favor as vossas sugestões.
A rota 2 ainda está em construção ;).

Quer mais sugestões já? Leia também aqui as dicas do Filipe, no fantástico blog de viagens Alma de Viajante.

Para saber mais sobre as bebidas tradicionais da Madeira leia aqui e sobre ser madeirense, leia aqui.

À nossa!

email

27 Comments

  1. Só é pena, confundirem uma data de misturas(vodkas e frutos) com algo regional, e tradicional como a poncha.

    • Olá António
      A explicação que me deram é que frutas como a tangerina e o maracujá, sabem melhor com vodka, do que com aguardente. Não deixa de ser diferente do tradicional… já que a poncha regional, tradicional é sim, feita com aguardente. Obrigada pelo seu comentário.

    • Meu amigo, obrigada pelo seu comentário.
      Não há dúvida que poncha, bebida tradicional da Madeira é feita de aguardente de cana, mel de abelha e sumo de limão. No entanto, nos últimos tempos, é também muito apreciada a “poncha” feita de diferentes frutos, será que lhe devíamos chamar outro nome?

  2. Ana Carolina says

    Parabéns pela rota! Está muito bem compilada! Deixo aqui a minha sugestão…Snack-Bar e Bilhares Silva (estrada João Gonçalves zarco), a poncha é feita tradicionalmente como manda a lei e mais importante sempre feita na hora! O bar possui uma agradável esplanada onde se poderá deliciar com os sabores de poncha mais tradicionais: regional, limão, tangerina e maracujá e ainda a poncha de tangerina e maracujá (os dois sabores juntos) que é super fresca e tropical. Claro que não poderiam faltar os dentinhos…todos os dias da semana temos um dentinho diferente que variam desde as patinhas de porco passando pelas galhas de espada, dobrada e bofe, asas de frango fritas, moelas guisadas, orelhas de porco sem nunca faltar os tremoços, amendoins e feijocas descabeche. O bar possui também uma variade de comida para sandes e doses que variam entre o filete de espada, polvo guisado e descabeche, carne vilho e alhos entre outros. Comida fresca feita diariamente. Preferencialmente depois 16h30 apesar de fazermos poncha a qualquer hora! Aberto das 7h da manhã às 2h da manhã. Experimente! O gerente é o Sr João Vieira.

  3. A questão já foi levantada mas volto a referir pois considero que não é apenas uma questão de modernização da poncha.
    A vodka custa metade do preço da aguardente de cana regional e vem de fora.
    A aguardente de cana regional é um produto local que emprega muitas pessoas.
    Fruta com vodka sempre existiu em qualquer parte do mundo.
    A utilização desta alternativa “Russa” é apenas uma forma dos bares rentabilizarem mais com a bebida.
    Vamos promover o que é nosso ou daqui a dias estamos a promover o bolo do caco do Macdonald’s 🙂

    • Olá Luís, obrigada pelo seu comentário e esclarecimento. Concordo que se dê prioridade ao que é nosso e mais autêntico. Quanto ao nosso bolo do caco, tenho a certeza que os consumidores da Mcdonald’s ficariam encantados ? Bjs

  4. Nesta rota faz falta a poncha da venda do nelson nas Fontainhas – Quinta Grande. Sem dúvida uma das melhores.

  5. Meus amigos… degustamos igualmente a poncha na sua forma original, aquela que por esse mesmo motivo é ainda hoje apelidada de “regional” e “à pesacador”: limão e aguardente, com e sem mel de cana respetivamente.
    Mas sabem o que é verdadeiramente nosso?
    A tradição do convívio descontraído. A fotografia de paisagens únicas que nos acompanharam tarde a fora. A autenticidade das mercearias e vendas por onde passamos. O sorriso de quem nos recebeu e explicou a adaptação à vodka.
    E não, pelo menos por ali onde passámos garanto, não é uma questão de preço, até porque o limão deverá ser, de todas as frutas, a mais em conta.
    É mesmo a conservação do paladar da fruta que também é nossa, a pitanga e o tomate inglês próprios de um clima subtropical e, por esse motivo, em vias de extinção face ao aquecimento global, maceradas na hora e artesanalmente, à força de um utensílio curioso e de nome inconveniente, também ele da nossa autoria 🙂
    É que se formos à origem da origem das coisas, nada é nosso e tudo é de todos. A própria cana sacarina é introduzida na ilha da Madeira depois de 1425, aquando da respetiva colonização, sendo que as primeiras estacas foram importadas da Sicília por ordem do Infante D. Henrique. Até a aguardente de cana era produzida no séc. XVII sob diferentes nomes e em simultâneo por esse mundo além: “tafia” nas colónias francesas, “aguardente de caña” nas colónias espanholas, “cachaça” no Brasil…
    A título de curiosidade e ainda na sequência deste contexto sócio-económico, o primeiro rum destilado a partir da cana-de-açúcar surge nas possessões inglesas no continente americano. Com jeitinho ainda o reclamamos para nós se conseguirmos provar que as canas utilizadas na altura foram importadas da ilha da Madeira!! Lol
    Estimo pouco posições fundamentalistas e julgo haver lugar para todos os palatos sem necessidade de desvirtuar à queima-roupa a experiência num todo que tivemos neste dia como por aqui leio com algum pesar.
    Tradição acima de tudo, sim, mas liberdade de escolha logo a seguir e de mãos dadas, até porque não sou pescadora e tenho estômago fraco.
    Chamem-lhe o que quiserem, “sumo da fruta bem nossa com bebida importada desde o século passado” se preferirem, mas esta foi e terá sido sempre a 1ª Rota das Ponchas!
    Parabéns Sofia, pelo trabalho desenvolvido!
    Só podias ser nossa 😉

  6. Maria do Carmo says

    Olá
    Adorei a Rota, obrigada!
    Não vou repetir o que aqui já foi dito sobre a poncha, a tradição, a origem, etc…
    Há que realçar o mais importante deste renascer da poncha, que esteve durante anos e anos associado aos pescadores, os xavelhas, de Camara de Lobos, associada às classes pobres, etc, é que nos seus mais variados sabores divulgou-se algo nosso, a tradição, a cultura…
    Mas nem todos sabemos fazer poncha como deve ser, infelizmente!
    De todas as aqui sugeridas, recomendo, também, a poncha da D. Margarida, Mini-Mercado e Bar Moinho, na Maloeira, Fajã d’Ovelha, Calheta. Não é uma venda mas no Mini-Mercado tem um Couscous fantástico e uma mistura de especiarias do antigamente. A poncha é boa e o dentinho de dobrada com feijoca é divinal!

  7. olá!!
    Conheço apenas alguns destes espaços de ponchas, mas para mim há um que não foi aqui mencionado e que tem sem dúvida uma das melhores ponchas da madeira, a TABERNA DA PONCHA, na serra de água, uma antiga taberna/ mercearia com mais de 70 anos, que tem o chão cheio de cascas de amendoim e as paredes cobertas de cartões de visita são estas as imagens de marca da taberna, fica num vale lindíssimo um espaço super agradável e com poncha feita na hora e só com aguardente, até mesmo as ponchas de maracujá e tangerina porque há aguardente de 40 graus (valor idêntico ao da vodka) que mantem o sabor do fruto..

  8. nunes da silva says

    Pois eu sou de Espinho, mas estive na Madeira 4 anos nos anos 80. E vim agora outra vez de férias a Madeira… e há uma coisa q eu sei q foi sempre respeitar quem é de cá e a sua gastronomia… no caso… bebidas. E é assim…. só sei q estou na madeira qdo beber uma brisa maracujá e beber uma poncha tradicional…. no dia q me servirem poncha com vodka nunca mais vá venho

  9. Pingback: Drinks in Madeira: Top 10 Drinks to try

  10. Pingback: Route of Ponchas - Part 2 - FROM MADEIRA TO MARS

  11. Pingback: 5 cool things to do when you visit Funchal - FROM MADEIRA TO MARS

  12. Pingback: 25 Things to do in Madeira this summer - FROM MADEIRA TO MARS

Deixe uma resposta