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(Português) Diários de Calcutá – A viagem à Índia.

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Diários de Calcutá




A partida.

De sorriso nos lábios, lá parti eu rumo à minha Índia. Já nos tratamos assim, no tom informal.

Funchal – Londres – Bombaim – Calcutá. Foram 27 horas de viagem.

Chegada a Bombaim. 34 ºC e chove muito. Mesmo ao lado do aeroporto jaz o maior bairro de lata do Mundo. Para quem viu o filme “Quem quer ser milionário”, sabe a que me refiro. Um mar infinito de telhados azuis, “encavalitados” num monte. Os arranha-céus de Bollywood mesmo ao lado. Um país de contrastes, tal como eu esperava.

Assim que se sai do avião, sente-se um cheiro molhado, abafado e quente. Depois o ar condicionado encarrega-se de o retocar. Espera-nos uma pausa de 6 horas entre voos. A tentação de sair do aeroporto é muita, mas a chuva e o receio de apanhar muito trânsito e de perder o único voo de ligação do dia, faz-nos recuar e esperar pelo próximo voo.


A chegada.

Foto gentilmente cedida por Budgettraveller.org

 

À saída do aeroporto, espera-me uma confusão de táxis amarelos e azuis, tuk-tuks, carros, autocarros, motas e carrinhas de caixa aberta com passageiros que ali vão de pé, agarrados às grades. As buzinadelas não têm fim. Fizeram-me lembrar os dias de casamentos na Madeira, em que os carros vão todos em fila a buzinar da igreja ao copo de água. Aqui, é assim todos os dias, a todas as horas uma festa. Logo compreendi porquê, pois na estrada não há linhas ou traços contínuos, o trânsito faz-se à custa dos apitos, que é como quem diz: – “Chega-te para lá!”

Alguns cruzamentos têm semáforos mas atravessar a estrada é uma aventura por si só. Há que levar o guarda-chuva numa das mãos, a carteira na outra (bem segura, junto ao corpo) e depois saltar as poças de água pelo caminho. Temos que ter cuidado com os carros que passam, mesmo ao lado, e respingam tudo e todos. Como se não bastasse, existem também cães e vacas no meio da rua, que tal como nós, também se afastam ao som das apitadelas.

Nas ruas, vende-se muita comida. Julgo que a comida de rua está para Calcutá como os bares Irlandeses estão para Dublin. De todas as cores e feitios, vendem de tudo e mais alguma coisa, desde cigarros, a ROTI (um tipo de pão) passando pela internacional Coca-Cola.

Depois há os amuletos da Sorte. Nós colocamos o terço pendurado no retrovisor, eles penduram lima e pimenta. Dizem que afasta o mal.

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O dia-a-dia.

Hoje, não vos vou pintar um quadro idílico de Calcutá. Não são férias de sonho, nem de sonhos, mas vida é tranquila, no meio do caos.

Tomamos chá ao pequeno-almoço, e ao lanche dormimos a sesta. Este ritual sabe-me a férias de verão, na Ilha do Porto Santo. Acordamos cedo e deitamo-nos depois da lua, pois a hora do sono demora a chegar.

As pessoas são uma simpatia, sinto-me bem-vinda. Adoram conversar, falam devagar e sorriem muito; conversam a sorrir, literalmente. Dentro de casa não se usam os sapatos da rua e cada quarto tem ventoinha. A vizinha do andar de cima, de 14 anos, perguntou se podia tirar uma “deitamos” comigo, queria mostrar aos amigos da escola como eu era branca.

Não há nenhum desconhecido que não me olhe por curiosidade, pois aqui não estão muito habituados a turistas. Alguns olham simplesmente, outros sorriem, unem as mãos e dizem Namasté. Outros dizem: – “Good morning, Mam”.

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Hoje chovia torrencialmente. Em cinco minutos as ruas ficaram completamente alagadas e mesmo com guarda-chuva é impossível circular. As pessoas que vivem à beira da estrada ficam com as suas “casas” alagadas. Depois a chuva passa, volta tudo à rua. Os adultos, as crianças, as cabras e os cães.

Faz-se chá de um canto, pão no outro, vendem-se flores e legumes, livros, roupas e comida. Vive-se e repete-se a vida outra vez.

A água potável em casa é um bem precioso. Todos os dias tenho visto pessoas a levarem bidões e garrafas vazias que são enchidas diariamente nas torneiras públicas. É lá também que se lavam os pratos, se tomam banhos e se lavam os dentes.

Hoje também aprendi algum vocabulário novo:

Bindi – Tradicionalmente, é um ponto brilhante de cor vermelha aplicada no centro da testa perto das sobrancelhas. A área entre as sobrancelhas é conhecida por ser o sexto chakra, ajna, a sede da “sabedoria oculta”. O bindi serve para manter a energia e fortalecer a concentração. Hoje em dia é considerado antiquado, mas vejo muitas pessoas que o usam.

Bichiya – Uso de anéis no 2º dedo do pé. Faz parte da cultura Indiana e significa que a mulher é casada.

Cholo? Que significa: Vamos?


A insónia.

Hoje não consigo dormir. É uma daquelas noites em que o calor, a humidade, a roupa colada ao corpo e o barulho do ar condicionado são intoleráveis.

Depois há as imagens que me varrem os pensamentos…O olhar vazio daquela menina no orfanato, a criança descalça cujas pernas arqueadas gritavam subnutrição, a vaca que caminhava perdida por entre os carros e o barulho do trânsito nesta terra, que não quer sair dos meus ouvidos.

Calcutá é para os fortes, os resilientes, os que perante o desespero não desistem, batem o pé, regateiam e empurram com mais força para entrar no metro. São milhões, 35 milhões? Nem sei ao certo. São muitos, não há ruas vazias, nem espaços por completar. Há multidões de tudo e no meio do tudo há também solidão.

Tem sido uma experiência difícil mas enriquecedora, mas isto é que é viajar. Fugir da nossa realidade estéril e dar de caras com um mundo novo.


Costumes e tradições.

Nunca tive consciência do impacto que a cor da nossa pele pode ter numa sociedade, como aqui, onde todos querem peles claras. Nós pomos autobronzeadores, eles colocam cremes para tornar a pele branca. Quanto mais escura for a pele, menos estatuto lhe é dado. Até nos anúncios que vêm no jornal ao domingo, isso é notório:

“Homem de 32 anos, Licenciado em Medicina, do signo escorpião, da casta bramem, procura mulher, de pele clara, do signo sagitário, da casta bramem.”

Existem páginas de anúncios destes, para eles e elas. Uma versão ligeiramente diferente de um site de encontros. Depois do tom de pele, o signo é o mais importante, seguido pela casta. A casta define a origem e o destino. Existem 4 castas, desde os padres/professores até aos criados/serventes, que devem manter as tradições da família ao casar com pessoas da mesma casta.

Falei com pessoas que casaram nesses moldes. Basicamente, existia um pretendente e a família dava a conhecer a sua filha, de acordo com os requisitos do signo e casta. As famílias encontravam-se, conheciam-se entre si e se corresse bem, marcavam casamento.

“Era uma roleta russa, podia ou não resultar.” No nosso caso resultou – disse o casal em questão.

Hoje em dia, já não é bem assim, embora ainda exista a tradição dos pais quererem ver o filho/filha casados. 

Uma vez disseram-me que não percebiam o que é que mantinha a Índia unida como país. Que parecia haver alguma falta de identidade patriótica. Num país desta dimensão com uma discrepância de dialetos, religiões e classes sociais, o que é que os une, afinal, como nação? Para poder responder a esta pergunta, julgo que teria que passar uns bons meses na Índia, a viajar dos Himalaias até às ilhas Andamão e Nicobar. Este país é gigante, mas ao falar com alguns amigos que cá vivem, ou que trabalham na Europa mas que querem para cá voltar (porque lar é onde mora o coração), tentei perceber a identidade de Calcutá:

  • Adoramos comida. Não só comer, mas conversar sobre comida, descrevendo exaustivamente cada sabor e textura.
  • Adoramos conversar, “Adda” sobre assuntos mundanos, ou sobre temas da atualidade política, ciência, religião, comida (já tinha dito, mas reforço).
  • Adoramos viajar e conhecer outras culturas, assim como receber e tratar bem os nossos amigos.
  • Achamo-nos um bocado “intelectuais” sabemos um pouco de tudo e mesmo que não saibamos, temos sempre uma opinião a dar. Ficamos horas nisto.
  • Adoramos manifestações! As manifestações políticas em Calcutá acontecem diariamente, e não há nada mais libertador do que nos juntarmos a uma multidão e gritar: “Jobab chai jobab dao!” que se pode traduzir como: “queremos respostas, deem-nos respostas!”
  • Adoramos música. Não só ouvir música mas cantá-la também – Em miúdos, era costume levarmos uma lista de músicas para uma loja ao lado da escola, que as passava para cassetes. A nossa escola tinha 10 secções de 60 alunos cada (apenas nosso ano). Competíamos por secção, tal era o tamanho da nossa turma. A escola era reconhecida com o recorde do Guinness por ter o maior número de alunos por sala. O único motivo pelo qual nos conhecemos era porque pertencíamos à mesma secção. Não fazíamos a mínima ideia, de quem seriam as outras crianças da escola. Lembro-me dos dias de chuva, em que as ruas ficavam inundadas e não podíamos ir às aulas. Adorávamos os dias de “Bandh” Greve!” Era uma alegria…”
  • Adoramos compras: roupas, perfumes, joias e livros. Adoramos ler e frequentar bibliotecas.
  • Adoramos discutir e falar sobre o amor, somos assim profundos…
  • Adoramos dançar ao som de todo o tipo de música. Tens que cá vir no Durga Phuja…”

A religião.

Gosto dos ensinamentos em silêncio do Hinduísmo, do cheiro a incenso, das velas e das reflexões pacíficas sobre mim própria, que advêm dessa prática. Ajudam-me a manter a postura, quando tudo o que me apetece é perdê-la.

O principal lema desta religião é que para haver crescimento tem que haver desconstrução. A visão de universo é cíclica. As quatro metas da vida humana são: Dharma (ética), Artha (trabalho), Karma (emoções) e Moksha (libertação).

Para alcançá-las, existem vários caminhos e outros rituais de cariz familiar de passagem ex: a primeira vez que uma criança come arroz este é-lhe dado pelo tio.

O que é o Durga Puja? É a maior festival do sul da Ásia. Comemora a visita anual da deusa Durga, e seus filhos, à casa dos pais dela, neste caso Calcutá. Ao fim de 10 dias regressa para o seu marido “Shiva”. Nas ruas há uma grande festa de dança e adoração aos Deuses. O final da festa é a imersão das esculturas (feitas de palha e barro) no rio Ganges, com a cara voltada para as pessoas. Alguns dias depois, vão buscá-las ao fundo do rio e o ciclo recomeça, outra vez.

Embora não tenha assistido ao Durga Pudja, tive oportunidade de ver algumas esculturas a serem preparadas em Kumartuli, o bairro dos ceramistas em Calcutá.

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Foi também junto ao Rio Ganges que assisti a uma cerimónia de cremação. Após a morte de um membro mais velho da família, os descendentes rapam o seu cabelo. No Hinduísmo, o conceito subjacente a este ritual é fazer uma oferta aos deuses. Rapar o cabelo é um sacrifício de beleza, logo, é uma forma de mostrar o seu luto/ tristeza, para a alma que partiu.

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O regresso.

Hoje, no regresso ao aeroporto, percebi que estava diferente – eu, não a cidade. Calcutá continuava caótica, suja, barulhenta com mãos estendidas a pedir trocos. No entanto, o meu coração já não para de bater quando passa por este cenário de degradação, onde casa pode ser uma tenda no passeio. Será que ganhei imunidade? A verdade é que nada te prepara para uma visita a Calcutá. Aprendemos a viver com a diferença, ou refugiamo-nos na “bolha” do centro comercial.

Se me perguntarem se gostei de Calcutá, a minha resposta é não. Calcutá é uma cidade feia, no geral, com muita pobreza nas ruas e muito luxo nos centros comerciais. Uma cidade onde os hotéis cheiram a flores e ar condicionado, e os passeios cheiram a urina e lixo. Não consigo andar na rua sem me preocupar, sem ficar chocada com o que vejo e sem me sentir mal com o calor.

Se me perguntarem se gostava de voltar a Calcutá, a minha resposta é sim. Não vou esquecer os olhos negros e brilhantes das crianças que me sorriam nas ruas, do cheiro das flores de jasmim no meu cabelo, das cores dos saris das mulheres, do verde das árvores e das limas, das quinquilharias dos mercados e do cheiro às especiarias. Mas mais que tudo, adorei a paz e a simplicidade com que vivi aqueles dias.

Calcutá faz-nos reduzir a felicidade ao essencial: cama, comida e carinho. Faz-nos agradecer tomar banho de água quente, ter máquina de lavar a roupa, beber água da torneira e atravessar uma passadeira com segurança.

Depois, temos experiências inacreditáveis. Que bom é dar um presente a uma criança e assistir em modo de estreia, à alegria do que é receber. Neste caso, esta menina ficou tão agradecida, a olhar para mim com o embrulho na mão, de sorriso rasgado. Não sabia o significado do verbo desembrulhar, era a primeira vez que recebia uma prenda. Dá-me vontade de reviver estas emoções. Senti-me como uma menina que conhece os prazeres da vida pela primeira vez. Isso não tem preço.

Esta foto foi gentilmente cedida por Budgettraveller.org

Se eu recomendaria Calcutá aos meus amigos? Calcutá não se recomenda. Não é uma cidade turística, nem para turistas, mas eu gostava de lá voltar. Gostava de conhecer melhor a Índia, outras cidades, outros pontos de vista. No entanto, sei que conhecer a Índia é uma viagem sem fim à vista. É correr contra o tempo, muito mais do que o tempo nos permite ou do que nós nos permitimos a nós mesmos…

P.S – Obrigada ao Kash por me ter levado à Índia e à sua família por me ter recebido em casa. Obrigada à Pritha, ao Vikram e ao Arnab pela visita a Calcutá. Graças à sua sabedoria pude perceber e conhecer melhor a história desta cidade. Desde o palácio de Mármore, à Sinagoga, à Mesquita, à Igreja Portuguesa, ao pequeno-almoço chinês no mercado e aos melhores doces da minha vida…Thank you!

Deixo-vos com algumas recomendações de Calcutá:

The Oberoi Grand Kolkata , belo hotel no centro de Calcutá e onde organizam visitas à cidade.

Bohemian – comida Indiana

Mainland Chinacomida chinesa

Girish Chandra Dey Nakur Chandra Nandyos melhores doces que alguma vez comi.

Melodrama – “cupcakes lovers”.

 Até sempre, Calcutá!     image

 

 

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